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30 de abril de 2012

Discussão continuada do Seminário sobre Pessimismo e Otimismo Moral


Julio Cabrera. “Em defesa do ponto de vista externo (Ainda sobre a polêmica acerca de pessimismo e otimismo moral)”


Comentários e Respostas:

EU ACABEI DE POSTAR RESPOSTAS A MARCUS VALÉRIO, FÁBIO SALGADO E CLAUDIO REIS A PROPÓSITO DO SEMINÁRIO NEGATIVO.

POR FAVOR, PEÇO AOS PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO E DEMAIS INTERESSADOS LER COM ATENÇÃO ESTES TEXTOS; ELES SÃO LONGOS, MAS SÃO CRUCIAIS PARA ENTENDER MEU PENSAMENTO. 

EU VOU INCLUIR ESTES TEXTOS EM MEU NOVO LIVRO, ‘MALESTARES PROFUNDOS’, QUE ESTÁ, COMO SEU AUTOR, EM FASE TERMINAL DE ELABORAÇÃO. 

ESTES SÃO TAMBÉM OS ÚLTIMOS TEXTOS NOS QUAIS POLEMIZO, POR CONSIDERAR ABSOLUTAMENTE INÚTEIS AS DISCUSSÕES FILOSÓFICAS. DEPOIS DISTO, VOCÊS SÓ TERÃO MEUS LIVROS E FILMES.

[3] Léo Pimentel: Pessimismo e Otimismo no Sentido Extra-Moral

[4] Marcelo Guimarães: Questões e Comentários
     Julio Cabrera: Educação Negativa? (Resposta a Marcelo Guimarães)

[5] Julio Cabrera: (resposta a Fábio Salgado) Acerca do Caráter Contingente da Ética Negativa


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Marcus Valério XR. "A ética da impossibilidade". 




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Comentários:

[1] Marcus Valério XR: Comentário ao Evento [Parte I]

[2] Marcus Valério XR: Comentário ao Evento [Parte II]

[3] Marcus Valério XR: Comentário ao Evento [Parte III - Final]

[4] réplicas de Julio Cabrera:
[4.1] texto 01: O Mundo já era Horrível Antes da Ética Negativa
[4.2] texto 02: Os Otimistas e seu Ódio Contra o Mundo

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Fabiano Lana. "A impossibilidade da ética por uma trajetória existencial-naturalista"


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Diógenes Coimbra. "Suicídio e ética negativa"


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Mesa redonda de encerramento: 

Claudio Reis ("O que há de positivo na ética negativa")


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Comentários:

[1] Cláudio Reis: Sobre a Inabilitação Moral
[2] Julio Cabrera: Acerca do Pretenso Caráter Absurdo da Tese da Inabilitação Moral

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Evaldo Sampaio ("A ética negativa à luz de Nietzsche").


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Comentários:


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* Os vídeos acima foram originalmente transmitidos ao vivo em:
http://www.ustream.tv/channel/pessimismo-e-otimismo-moral


20 de abril de 2012

Resposta a Eder Wen

Prezado Eder: 

Como impulsos biológicos de sobrevivência puramente animal, qualquer coisa é compreensível: defender posições filosóficas no meio da incomunicação, insistir em ser reconhecido, procriar, abortar, assassinar, fazer ética negativa, etc. Estamos vivos por enquanto e somos compelidos por poderosas forças naturais que nos levam a fazer coisas absurdas como esse seminário. A questão não são os impulsos, mas os argumentos; e segundo os argumentos, procriar, abortar e matar são imorais, além de ser impulsos naturais; creio que fazer filosofia, arte, música, etc, são menos imorais; discutir filosofia é, segundo vejo, uma manifestação animal natural como outra qualquer, uma forma de luta e de predomínio sobre o outro onde qualquer conteúdo serve; certamente, eu mesmo caio sob essa crítica: quando digo que toda e qualquer forma de discussão ou de busca de reconhecimento é vão, claro que incluo as discussões em que eu me enfronho e as minhas próprias ânsias de reconhecimento; como é que poderia não incluir?

Como já te falei pessoalmente, e em aula, teus argumentos são da forma Tu Quoque (ou seja: Você faz a mesma coisa que critica). Em lugar de simplesmente apontar para essa falácia (dizendo algo como: “O conteúdo de um argumento deve diferenciar-se do direito que alguém tem de enunciá-lo”), prefiro responder a este tipo de argumento da seguinte forma: “sim, é verdade; como poderia não ser? Se eu fosse uma exceção a meu próprio argumento, este seria incorreto. Quando afirmo que não nos comunicamos, incluo esta mesma mensagem”. Como escrevi para o Marcelo Senna, o fato de você ter estimulado suas ideias, ter escrito seus dois e-mails, ter pensado em montões de coisas depois do seminário, etc, nada tem a ver com comunicação; são subprodutos que você obteve quando você levou tudo o que escutou para seu próprio universo e ali você os elaborou; “resultados positivos” você tem de tudo, mesmo das maiores catástrofes (posso dizer que o Nacional-socialismo intensificou os estudos éticos nas universidades alemãs de pós-guerra).

Enquanto a busca por reconhecimento, ela é uma forma de autovalorização que, enquanto estivermos vivos, precisamos. É realmente uma tolice participar de discussões filosóficas, mas um animal evoluído que estudou filosofia ainda pretende o absurdo de querer convencer aos outros da correção dos seus argumentos. Trata-se de absurdos auto-incluintes. Não se trata de temor de enfrentar argumentos porque eles possam ser sólidos contra a própria posição; isso não é uma possibilidade, mas uma certeza total: certamente, quando o outro tiver levado a minha fala para seu próprio universo, ele terá os melhores argumentos a seu favor; e eu farei o mesmo com os argumentos dele, e já estamos instalados no meio de uma luta animal como outra qualquer; sem garras nem dentes, mas com argumentos, tão violentos quanto aqueles.

Ontico-ontológico: as desconsiderações cotidianas (filas, barulhos) não têm solução porque são ressonâncias da terminalidade ontológica do ser? Isto se vincula com as perguntas de tipo social do Gabriel Silveira, que vou responder nesses dias. Penso que as pessoas fazem barulho numa tentativa desesperada de dar-se valor a si mesmas, o que inclui desvalorizar os outros, mostrar seu poder animal, seu domínio de uma área, estender os limites de vidas acuadas e frustradas pela falta de lazer, o trabalho excessivo, a falta de oportunidades; todas as medidas sociais que se tomem para aliviar essas situações num setor da rede, poderão criar outros problemas e outras vítimas em outros setores. Penso que as pessoas poderiam, teoricamente, comportar-se de maneiras menos desconsideradas, mas que a ansiedade de viver, o "amor pela vida", o desejo de "viver intensamente", etc, são extremamente depredadores; assim, o que é impossível no nível ontológico ressoa como impossibilidades no nível ôntico; poderia mudar, mas não vai mudar.

Infelizmente, você vai ter que odiar ética negativa, porque ela apenas aponta para o puramente negativo sem fornecer saídas; ou: há saídas, mas elas bloqueiam outros caminhos. Os humanos estamos colocados numa situação sem espaço para atender a todas as solicitações éticas, de maneira que qualquer solução positiva terá também efeitos negativos.

Acerca das expressões “ter valor negativo” e “não ter valor”, ler a página 15 do livro “Ética negativa: problemas e discussões” (Editora da UFG, Goiânia, 2008). 

Fazer ética negativa, ser pessimista, apontar para a miséria da nossa existência, são também mecanismos defensivos diante do ser-terminal e seus atritos; insisto, como impulsos animais de desespero e defesa, otimismo e pessimismo não se distinguem; apenas se distinguem pelos argumentos; otimismo e pessimismo são duas maneiras de lidar com o desamparo, a falta de base, a insegurança, o desânimo, etc; isto é bem colocado pelo Marcus Valério. Mas que exista ética negativa, que tenha surgido um filósofo que pensasse essas coisas, não era algo necessário nem mesmo desejável; trata-se de algo perfeitamente inútil, tanto quanto as filosofias otimistas. Certamente, não valeria a pena nascer para escrever a ética negativa; as coisas que fazemos nos agradam, mas são apenas defesas contra o fato de ter nascido; não tem sentido desejar nascer para defender-se de ter nascido; melhor não nascer, melhor não fazer ética negativa nem afirmativa, melhor nunca ter sido. E o mesmo diria de Mozart, Bergman e Machado de Assis: já estando aqui, foi bom para nós (embora talvez não para eles) que eles existissem; mas seria absurdo fazer nascer pessoas com a esperança de gerar um Mozart, um Bergman, um Machado ou um ético negativo.

Trágico e patético: nem mesmo as vidas de Gandhi ou de Abelardo e Heloisa foram trágicas de ponta a ponta; certamente foram patéticas na maior parte do tempo; deles os historiadores resgataram apenas as partes trágicas, escamoteando as patéticas; se algum historiador escolhesse cuidadosamente algumas partes das nossas próprias vidas, ele poderia construir uma bela tragédia para a posteridade; quando vemos um filme heroico e nos emocionamos, isso ocorre porque o diretor dispensou toda a cotidianidade patética dos personagens e ficou com uma antologia de cenas privilegiadas; qualquer vida humana, mesmo a mais insignificante, ficaria trágica após este recorte. Na maior parte das vidas, suas escassas partes trágicas ficam devastadas por suas cotidianidades patéticas; as nossas vidaz são filmes muito mal dirigidos.

Obrigado pelas questões; abraços, Julio Cabrera.

EDUCAÇÃO NEGATIVA? (Resposta a Marcelo Guimarães)

Caro Marcelo:

Começo contigo as minhas respostas inúteis contra várias perguntas sobre os temas do seminário negativo, tentando incrementar novas confusões e desentendimentos. Você é o primeiro da lista. Não conseguia achar tempo para elaborar as minhas respostas, curiosamente em função de compromissos todos vinculados com ética: estive terminando um artigo para uma revista do sul sobre impossibilidade da moral, escrevendo um capítulo sobre minha ideia de ética para um livro de Bioética, e na próxima semana vou dar uma conferência sobre inabilitação moral num Encontro Internacional da Sociedade Bioquímica, em Foz de Iguaçu. Também pensava que tinha ficado magoado pela minha explosiva apresentação em Salvador, em dezembro do ano passado.

Todos teus elogios sobre a transmissão e a “perspicácia da moderação virtual” são plenamente merecidos por Léo Pimentel, o nosso incansável colaborador, não somente técnico, mas também filosófico. (Como ele é muito tímido, ele fica corado quando eu digo isto).

Sobre inutilidade do diálogo. Bom, eu quero dizer que não nos comunicamos nunca (nem mesmo agora, nem mesmo no seminário) na medida em que tudo o que digo é colocado por você num contexto estranho (o que é inevitável); nesse contexto, cada um faz o que quiser com a fala do outro e, nesse sentido, tira proveito, e por isso não é “inútil”; mas a utilidade de um conteúdo é derivado da sua inevitável deturpação; por isso, argumentos de outros participantes (como Eder Wen), que dizem que o diálogo é frutífero porque fez com que ele escrevesse um e-mail que não teria escrito, confundem o proveito que sempre tiramos da deformação das ideias do outro, e a comunicação, que seria o entendimento do que a outra pessoa queria realmente dizer; creio que o proveito está em função direta da in-comunicação; tiramos proveito de in-comunicar-nos.

Isso eu diria também a propósito do que você chama “uma transformação de si”: trata-se de uma transformação, mas talvez baseada em algo que eu não disse, ou que disse querendo dizer outra coisa. Já me encontrei na rua com pessoas que me dizem que mudei as suas vidas por ter dito X, sendo que eu jamais disse X; sendo que eu disse o contrário de X; Mudei a vida dessa pessoa? Talvez; Nos comunicamos? Não. E este mesmo processo está acontecendo neste preciso instante, quando você está lendo esta mensagem. Assim, não acredito na tua frase a propósito do final teatral do seminário (“E, no entanto, houve comunicação!”). Em absoluto. Houve interação, e desviada, indireta, atrapalhada, deturpadora e cansativa. Não acredito que a interação aprimore a relação entre seres fadados a um grau de incomunicação; a interação pode desgastar, impacientar, criar úlceras, criar inimigos, entediar. E quando os graus de incomunicação são quase absolutos – como em nosso seminário – é terrivelmente desgastante; não me sinto nada aprimorado após essas lutas todas. Por que continuo a fazê-las? Isto eu vou esclarecer na minha resposta ao Eder.

O efeito mais imediato dos leitores ou ouvidores da ética negativa é "buscar saídas"; pois as pessoas têm a pretensão extravagante de querer continuar vivendo. Não sei mesmo o que seja uma “educação negativa”, Marcelo, mas sendo eu um convicto anti-natalista ontológico (para me diferenciar dos anti-natalistas ecológicos como Marcus Valério; eu seria contra nascimento mesmo que a natureza oferecesse as melhores condições de vida), qualquer tipo de educação negativa por parte dos progenitores supõe o erro de procriar já cometido; portanto, a educação negativa progenitora seria um paliativo incapaz de se fazer desculpar o indisculpável; é claro que, precisamente por isso, sustento que os filhos não têm nenhuma obrigação moral para com os pais (além das que têm com eles como seres humanos), e os pais têm todas as obrigações para com eles.

Não pensei muito mais nesse assunto, mas, certamente, não deveríamos ficar pensando em ter filhos apenas para educá-los negativamente; uma educação negativa progenitora é tão excessiva e supérflua quanto uma afirmativa, talvez porque, no fundo, não pode existir uma educação totalmente negativa; pelo contrário, como já escrevi em algum lugar, diante de um filho já nascido não tenho mais direito de negar o mundo radicalmente: eu tenho que dar um mundo para ele. Nesta trilha, uma “educação negativa” seria quase uma contradição. Então, para usar as tuas expressões de outro e-mail teu, a educação negativa poderia ter sentido "entre dois sobreviventes", nenhum dos quais é culpado da existência do outro; como na relação usual de professores e alunos; eu penso que a maioria dos professores são também pais, e levam para a sala de aula algo da sua atitude paterna; mesmo não sendo assim, parece-me que os professores tentam construir um mundo para seus alunos, apresentar-lhes um futuro afirmativo “apesar de tudo”; eu, pessoalmente, prefiro apresentar-lhes o tudo do pesar.

“Amor negativo”? “Religião negativa”? “Discussão negativa da ética de Spinoza?” Seria muito interessante que você desenvolvesse estas questões depois da minha morte. Se fizer alguma coisa antes, let me know.

Marcelo, muito obrigado por estas tuas epifanias através dos anos; abraços sem saídas, Julio Cabrera.

Militância Negativa

Gabriel Silveira: 

Então: a questão do social e a ética negativa; a princípio há como uma aparente incompatibilidade, porque a ética negativa é um dispor-se à morte em qualquer momento que a ética o exija, enquanto que o político demanda a existência indeterminada; uma política negativa deveria ser forçosamente uma política terminal exercida por uma espécie de militante suicida (no sentido largo dado por Diógenes Coimbra). Não há planos para o futuro longínquo, apenas a política imediata enquanto não se morre. Bom, algo como a política negativa de Cristo e Sócrates, os dois suicidas-base da nossa sociedade ocidental. Nada como uma “política” no sentido usual. Qualquer “mudança social” se opera dentro da rede onde inevitavelmente estamos inabilitados (Claudio Reis tem dúvidas terríveis sobre esta noção, totalmente crucial na ética negativa, dúvidas que ele me colocou em particular, e às quais vou responder neste mesmo espaço na próxima semana, se meu avião para Foz não cair; curiosamente, eu tenho que dar lá uma palestra sobre inabilitação moral). Em qualquer mudança social haverá vítimas, não apenas as previsíveis (os “inimigos”), mas as vítimas da própria mudança, seus pretensos "favorecidos".

Já escrevi, no trecho que você cita (de “Porque te amo...”), que considero o pessimismo estrutural um luxo de classe, e que uma das conquistas sociais negativas seria livrar aos miseráveis do seu obrigado “otimismo”, do seu “rir pra não chorar”; colocá-los diante do ser-terminal do ser em posição reflexiva (porque em posição existencial, os mais pobres já estão expostos aos raios mortais do ser; os mais ricos os alugam para proteger-se eles mesmos desses raios; o discreto encanto do ser-terminal). Mas isto tampouco é possível em sentido radical, porque a sociedade desabaria se todos tivessem meios econômicos para se proteger; as sociedades só se sustentam na base da miséria de uma parte da população; isso está previsto; dito em termos negativos: a ocultação bem-sucedida do ser-terminal não pode ser distribuída sem submeter uma parte da população a seus rigores.

Muitos burgueses pensam que as pessoas despossuídas são "mais felizes" que elas (por estarem distraídas do ser-terminal a nível reflexivo); mas é precisamente dessa “felicidade” que deveriam ser libertadas essas pessoas numa política negativa; trocá-la pela lucidez. Mas isso é impensável a nível global. Parece que a ética negativa deva ser uma dessas filosofias privadas das que fala Rorty; algo que contribui a enriquecer a nossa subjetividade, mas que de pouco serve para organizar socialmente a morte humana.

O mais importante que tenho publicado sobre política negativa é o ensaio 9 (o último) do livroAnálisis y Existencia. Pensamiento em travesía (Ediciones Del Copista, Córdoba, Argentina, 2010), chamado “Políticas negativas y éticas de la liberación: ¿es posible ser un pesimista revolucionario? (Mi encuentro con Enrique Dussel)”. O livro está sendo vendido pela Livraria Cultura, mas é caro e demorado. O texto desse capítulo pode ser achado na versão espanhola da minha página, como também minha polêmica com Dussel sobre suicídio.

Não entendi a tua última questão: “como falar da estrutura terminal do ser poderia garantir-se de não desconsiderar o acontecimento do ser do outro?” Bom, em meu novo livro de ética, “Mal-estares profundos”, estou tentando formular alguns "imperativos negativos"; o primeiro deles é, precisamente: não culpar ao outro do ser-terminal do ser; ou seja, dar-se por conta, a través de um imenso esforço, que o outro é uma vítima como eu, e que destruí-lo não me reportará qualquer benefício, mesmo que ele esteja “em meu caminho”; dar-se por conta de que o nosso inimigo comum é o ser; que é o ser que nos lança uns contra os outros como inimigos (se existisse Deus, o inimigo comum seria Ele, é claro). Não sei se é isso o que você queria dizer.

Estive folhando nestes dias teus “Escritos filosóficos de Juventude, breves encontros”; são tão lindos, mas me deixam melancólico; me deixam me perguntando o que será de todos vocês, pequenos filósofos brasileiros, nesta selva imensa chamada filosofia universitária onde já nada respira nem sua, apenas proclama.

Abraços desiguais, Julio Cabrera.

19 de abril de 2012

Comentários ao Evento [Parte III - Final]

Jogo de Cartas Marcadas

A palestra do Fabiano foi a que, a meu ver, mais me deu o que pensar. Talvez por que eu compartilhe mais da investigação biológica, que, é bom lembrar, exige um esclarecimento, já solicitado por uma das perguntas que vieram por e-mail no dia do evento.

Meu ceticismo se aplica principalmente ao plano epistemológico, mas qualquer discussão num âmbito mais específico já pressupõe um afastamento de tal ceticismo, uma suspensão do mesmo, e a incorporação plena dos conhecimentos aplicados.

Não é só a biologia, e a ciência em geral, que utilizo. Também faço o mesmo com diversos sistemas filosóficos e religiosos. Por isso utilizo tanto o Budismo nesta discussão, por se tratar de um sistema de pensamento que tem idéias muito interessantes. Com freqüência, utilizo também a teologia cristã. Mas nada disso me torna menos cético, por que todos são instrumentos intelectuais que costumam funcionar bem em seus respectivos objetos.

Por isso devo corrigir algo que certa vez eu disse ao Fabiano. Nós não partimos exatamente do mesmo ponto, a biologia, e sim a usamos de modo similar. Continuo partindo do ceticismo egocêntrico, embora, no caso, escolhendo o campo científico como o favorito para tal discussão. Por outro lado, penso que ele parte da Ética Negativa e utiliza o campo científico, embora tenha afirmado que partiu da biologia e chegou à mesma conclusão.

Parece que os negativos em questão, Cabrera, Diógenes e Fabiano, todos tem Kant em alta conta, e partindo de uma noção de ética de deveres radicalizada, compartilham a conclusão da impossibilidade ética. Que caminho será utilizado: metafísico, biológico ou psicológico, penso ser menos relevante.

Mas numa abordagem biológica, percebi agora uma estranheza profunda. É que seguramente nada poderia lhe ser menos íntima que a deontologia Kantiana. O consequencialismo seria algo mais próximo, mesmo o utilitarismo, e até mesmo o aristotelismo possui pontos de contato relevantes. Mas como o poderia uma doutrina que parte exatamente de uma concepção incrivelmente artificial de ser humano?

Ora, Aristóteles estava certo em nos chamar de animais racionais, mas isso jamais excluiu o emocional. Somos antes passionais que racionais. Nossas emoções já estão plenamente desenvolvidas antes de nossa razão começar a se organizar. Não é por outro motivo que os teóricos da ética de sentimentos vêem nela um fundamento muito mais seguro do que a débil racionalidade, que pode ser perdida com incrível facilidade, em especial nos momentos de furor emocional, onde somente outra emoção contrária, de força equivalente, pode nos equilibrar.

Isso é claríssimo na biologia. Enquanto os processos cerebrais mais sofisticados mal são identificados no cérebro, os emocionais são facilmente observáveis, inclusive com nomes bem conhecidos para identificar os hormônios que nos inundam nos momentos passionais.

O próprio Dawkins deixa muito claro a função do egoísmo e como dele emerge o altruísmo, algo muito próximo ao que os sentimentalistas apontam como processo fundamental da base psicológica da ética. A Simpatia para Hume e Smith, e Adriano Naves de Brito, a Empatia para mim, são fenômenos que podem ser facilmente redutíveis a eventos físicos observáveis, inclusive a nível hormonal, e áreas específicas do cérebro. E inclusive com fenômenos análogos no reino animal.

Enquanto isso, o senso de dever kantiano é algo impossível de ser observado nos animais, até difícil de ser sequer concebido, e mesmo havendo alguns estudos que poderiam sugeri-lo no cérebro humano, são estes muito mais vacilantes, se forem de fato plausíveis.

Mesmo com tudo isso, Fabiano conduziu sua análise com intuições kantianas, passando por existencialismo, e flertando com as outras duas tradições principais da ética, mas nem passou perto da única que de fato tem um contado direto com a biologia, que é a de base emocional!

Pensando bem, sua conclusão não só é absolutamente coerente, como não penso que poderia ser de outra forma, porque do casamento da biologia com o existencialismo tendo o deontologismo como padrinho, seria impossível derivar qualquer outra coisa que a inabilitação ética, visto a sofisticada concepção kantiana inexistir em qualquer observação biológica, bem como qualquer concepção existencialista.

Seria como ter um 2, um 3, um 4 e um 7, todos de naipes diferentes, e esperar que com a quinta carta se tenha uma mão matadora!

E tem sido inacreditavelmente maçante na academia essa insistência previsível nestas 3 tradições éticas. Sempre as mesmas figurinhas carimbadas! Que já deixaram claro seu esgotamento há séculos, enquanto a tradição sentimental, praticamente inexplorada, continua sendo por completo ignorada mesmo sendo a única que pode se comunicar diretamente como as ciências. E se a minha abordagem não for suficiente para demonstrá-lo, ao menos a do Adriano Naves poderia ser considerada.


Apelação

Sempre na típica insistência de que enfocar o pior é manifestação de uma inteligência superior, lembro-me da afirmação do Diógenes de que podemos ter certeza da imoralidade íntima do agente por meio de seu ato, mas jamais da moralidade. Faltou acrescentar, mas penso ser espontâneo, que isso está diretamente associado ao pressuposto da ação desinteressada.

Mas penso que na realidade, devido a inviolabilidade da intencionalidade, não podemos ter certeza nem mesmo da imoralidade. Nos meus termos, não temos acesso à ética interna do agente. Não nos é possível ter certeza sobre o conteúdo mental íntimo de alguém. Podemos apenas inferir segundo critérios de razoabilidade.

Claro que ao dizer isso, Diógenes apelou. Foi direto pro exemplo do criminoso que sequestra, tortura, estupra, mata e enterra! E é claro que eu começaria com situações muito menos drásticas. Curiosamente, mesmo nesse exemplo extremo ele vislumbrou uma possibilidade de relativização.

Quanto aos inúmeros casos mais comuns, não é difícil conceber situações onde o ato aparentemente mal intencionado teria, no fundo, uma boa intenção, que não nos fosse acessível.

Para deixar claro, não estou preocupado em relativizar situações concretas e por em dúvida se tal ou qual indivíduo agiu eticamente ou não. Afora as evidências que podemos acessar, cabe julgá-los e puni-los de acordo com nossos instrumentos usuais.

O que rejeito é a pretensão epistemológica de que isso nos permite estar certos dos conteúdos mentais alheios mais ocultos, quando esses frequentemente são inacessados até mesmo pelo próprio indivíduo.


Mais uma Vez, O Valor e a Terminalidade do SER

Poderia ser mais útil do que se pensa.

Gostaria de poder chegar numa concessionária de veículos e explicar o conceito de terminalidade dos automóveis. Ora, saem de fábrica já marcados pela sua destruição estrutural. Por mais revisões, manutenções e reparos que façamos, nada os fará ultrapassar algumas décadas de existência.

Ademais, possuir e utilizá-los está marcado por graves atritos estruturais. Trânsito engarrafado, risco de acidentes, falta de vagas no estacionamento e todo o estresse da direção. E inúmeros e intermináveis custos com impostos, gasolina, troca de óleo etc.

Tudo isso lhes é intrínseco, e não adquirido. Não é um acidente que lhes acontece, mas algo que faz parte de sua própria essência desde antes de serem construídos. Assim, marcados pela terminalidade, eles não podem ter valor. Ou melhor. Tem valor negativo!

Assim, o vendedor deve aceitar que não apenas levarei o carro de graça, mas que na verdade eu é que deveria ser pago por levá-lo!

Brincadeiras à parte, poder-se-ia alegar uma diferença fundamental entre entes materiais que se dão no intramundo, e a existência em si. E que um carro só tem valor porque já estamos vivos, jogados no mundo, e precisamos dele para atenuar as agruras de nossa existência.

Mas não deixa de ser notável que o argumento que supõe-se invencível para a vida em si soe completamente esdrúxulo para tudo o mais que ocorra dentro da vida. Ao passo que seu adversário, o de que a Vida tenha valor neutro, e se torna positiva porque nós arbitrariamente lhe atribuímos valor, por outro lado funciona tanto para existência em si quanto para todos os entes internos a ela. E mais! O valor do Carro também é arbitrariamente atribuído, pelo sistema de valores que erigimos dentro da existência.

Que fique delineado com mais clareza a oposição entre a noção da desvalia estrutural e incorrigível da existência, e de sua neutralidade original positivada arbitrariamente pelos que existem, embora lhes seja de direito negativá-la também.


Genocídio Estrutural Global

Se um Ético Negativo, convicto da miséria existencial e inabilitação moral, de que é preferível Não-Ser a Ser, e que melhor seria a extinção da humanidade...

Se este Ético Negativo estiver de posse da uma poderosa arma de aniquilação maciça, podendo nadificar toda a humanidade instantaneamente sem qualquer sofrimento nesse processo de morte, podendo fazê-lo num simples apertar de botão, então...

Não estaria ele moralmente obrigado a fazê-lo? Isto é, pelos parâmetros da EN?

Como não?! Pelo respeito à autonomia alheia? Mas tal não seria absolutamente irrelevante perante o benefício infinito de poupar bilhões ou trilhões de humanos futuros da infame existência sofredora?

E como articular isso com a anti concepção como princípio moral?

Se é desejável não fornecer autonomia alguma ao Não-Ser, para que ele não seja obrigado a escolher perpetuamente tudo o que não deveria, e inutilmente tudo o que não pode, não seria no mínimo harmônico remover-lhe de vez tal inútil autonomia que só perpetua a miséria existencial?

Porque algo que não merece sequer ser gerado merece ser protegido?

Não se viola a autonomia do Não-Ser ao se conceber alguém, pois tal não existia. Foi Criada uma Autonomia!

Porque deveríamos respeitar a existência de algo que não deveria ser trazido à existência?

De fato, a EN condenar o assassinato pelo impacto que este causa nos demais, e de fato está obrigada a não causar mais sofrimento a outrem, de modo que essa questão proposta exige a aniquilação completa de todos os humanos, inclusive o próprio executor.

Nesse sentido, como condená-lo?

E até menos. Como condenar o assassinato, ao menos o indolor e instantâneo, de um solitário eremita desconhecido do qual ninguém sentirá falta? Não seria não somente justificável pela EN, mas até mesmo obrigatório? Isso não acrescentaria um bem ao mundo, por remover mais um dos “competidores” que estão a todo tempo roubando o ar, a água e demais recursos naturais dos demais viventes?

Mas porque limitar isso somente à humanidade?

Ainda que os animais não possuam a temível Sensciência que lhes permite experimentar a agruras da vida de modo tão intenso quanto os humanos, eles ainda experimentam toda a sorte de sofrimento e são também terminais. Alegar que a ignorância os protege da inabilitação, quer seja moral ou para não ser miserável, haveria que confrontar porque o mesmo não o faria com os humanos que acreditassem fielmente na vida eterna, até com ótimas justificativas, ou sequer pensassem sobre o assunto.

Claro que o acesso privilegiado à Verdade Transcendente da Existência dos Éticos Negativos proíbe essa consideração.

Mas ocorre que, pela mesma fonte de tal alegado acesso à uma inquestionável descrição não só da existência, mas da pré e da pós não-existência, a espécie humana surgiu por evolução neste mesmíssimo planeta, e assim, nada impede que venha a surgir de novo.

Se é que já não poderia estar em processo de surgimento em animais mais desenvolvidos como nossos primos chimpanzés e bonobos. Estariam eles, com seus 99% de similaridade genética conosco, protegidos também pela ignorância, ou serão também vítimas ao menos de um princípio mental que lhes permitiria vislumbrar sua lastimável condição existencial e os inabilitem moralmente?

O fato, é que o fim da espécie humana em nada impediria o surgimento de outra espécie sensciente, que é no mínimo potencial, se não télos do universo.

Com isso, não seria mais prudente, ao invés de se limitar a aniquilar a humanidade, aniquilar por completo toda forma de vida?

E me dou o direito de não ter a menor paciência com qualquer um que, munido da simpatia pelo genocídio global, venha me falar em algum tipo de impedimento para se violar a autonomia dos animais!

Mas o planeta possui todas as condições necessárias para dar novo surgimento à vida, e assim, para garantir de uma desgraça tão profunda quanto viver não ocorra novamente, seria mais prudente demoli-lo por completo. E o mesmo com os demais planetas que possam conter vida ou potencial para tal.

Em suma. O melhor seria aniquilar o Universo inteiro.

Por que há algo invés de nada?

Não se sabe, mas mesmo os Negativos acreditando que o nada é preferível ao algo, não muda o fato de que a vida humana está aqui, e é algo que a qual teremos que lidar necessariamente, a não ser que algum herói negativo nos presenteie com um generoso artefato aniquilador global.


De Volta ao CAOS

Mas talvez não exista o Nada, mas sim o Caos. Ser puro, indefinido. A aniquilação, a nadificação, seria caosificação.

A diferença é o enfoque.

Como algo sai do Nada? Quem o retira de lá? A Ética Negativa parece nos ver como deuses capazes de entificar o inexistente. Como criadores que produzem ex-nihilo. Mas talvez sejamos apenas demiurgos capazes de atualizar os devires potenciais na matriz infindável do Caos primordial.

Cada um de nós é uma possibilidade genética ínfima manifestada em detrimento de inúmeras outras que poderiam ter se manifestado, com histórias pessoais de improbabilidade extrema dentre uma infinita matriz de possibilidades.

Se há um Nada primordial, o Ser não é apenas um acidente fadado ao desaparecimento, é também inexplicável. Mas se há um Caos primordial, o Ser é necessário e inevitável. Não importa que o Universo sofra a morte entrópica terminal ou desapareça nos horizontes de evento dos buracos negros que levam toda a matéria à eternidade. Será da natureza do Caos se atualizar sempre, num eterno Devir.

Então sempre existirá vida, surgindo morrendo e voltando, retornando eternamente, quer gostemos ou não.

Nesse caso, sentido algum faria nos rebelarmos contra a existência, pois ela nos tirará do Caos inevitavelmente, nos condenando a uma existência perpétua, que para o Budismo é o Samsara, mas para quem escolher outra postura, apenas aquilo que chamamos de vida, cuja autonomia nos permite que vivenciarmos como bem entendermos.


Marcus Valerio XR

Comentários ao Evento [Parte II]

O Substantivo Morte e o Verbo Morrer

Abri mão quase por completo de argumentos céticos na abordagem direta do tema. O Professor Evaldo chegou a tocar no tema, surpreendentemente corroborado por Diógenes, da mortalidade não ser de fato algo que se apresente de imediato ao vivente em sua constituição física. Me abstive de comentar, e não por uma insistência cética de que a certeza de que nosso corpo irá ser destruído de modo algum garante a extinção de nossa mente mesmo admitindo o fechamento causal do mundo físico.

O motivo maior que me levaria a tal tema seria a questão da constituição humana. Se o parto deixa uma marca indelével nos humanos (ao passo que curiosamente ninguém parece ter se preocupado com a marca que deixa na mãe), tal marca parece indiscernível. Muito mais notável é a perenidade psicológica da criança, e a imortalidade psicológica do jovem, que mesmo sabendo que morrerá, costuma ter isso num horizonte tão distante que sua expectativa de vida pode ser indiscernível da perenidade.

Para apelar aos dados científicos, como bem o disse o Professor Evaldo, o primeiros sinais do envelhecimento se apresentam após os 30 anos, e até lá, o próprio corpo não sabe que é terminal, e o que o corpo não sabe, a mente costuma também fazer vista grossa.

Disso, penso que a “terminalidade do ser” (que em termos ontológicos soa até contraditório, visto que o Ser deveria ser eterno), parece-me fazer sentido apenas do ponto de vista cronológico, pelo fato de que tudo neste universo é temporal. O problema não é a vida ser temporária, mas os seres senscientes terem consciência disso. Não deveríamos falar então em desvalor da vida pela sua terminalidade, porquanto todo e qualquer ente existente, inclusive os astronômicos, seria também desvalido.

Ou todo o universo é negativo, ou somente a Sensciência o é.

A distinção entre Morte Pontual e Morte Estrutural, nesse ponto, é como distinção entre Verbo e Substantivo, acrescida de algumas sutilezas.

O Morrer pode ser praticamente instantâneo ou largamente letárgico. Do ponto de vista biológico, uma vida longa passará sua maior parte “morrendo”, findo suas 3 décadas de progresso. Nesse ponto, MP e ME parecem apenas graus distintos de um mesmo processo.

Mas parece haver também uma espécie de Morte Substantiva, que está impregnada na vida não como processo, não como devir, mas como Ser mesmo! Ser e Não-Ser se confundindo, a Suprema e Absoluta Contradição!

Talvez seja mais interessante a Morte como Substantivo. Seria o próprio núcleo existencial, o Vazio no interior da Mente, o Buraco Negro em torno do qual a galáxia mental gira, que jamais pode ser contemplado diretamente.

Ignoro melhor descrição, poética, do Nada (se é que isso faz sentido), que a de Michael Ende em a História Sem Fim.

“...não havia um buraco. (...) Um buraco ainda é alguma coisa. E ali não há nada. (...) não há palavras pra explicar! (...) Não era um lugar ermo, nem uma zona escura ou clara; era algo insuportável à vista e que dava às pessoas a sensação de terem ficado cegas. Pois não há olhos que suportem olhar o nada total.”

Quando criança, muito antes de supor que dividia um mesmo planeta com filósofos, costumava me pegar pensando no porquê das coisas existirem. “Já pensou se não existisse nada?” Eu me perguntava, e começava a tentar imaginar como algo poderia vir deste nada, ou o mais interessante, como seria esse nada. O resultado invariavelmente era um despertar súbito do transe, quase na forma de choque elétrico, dada a repulsão que a aproximação mental com a idéia do vazio gerava.

Esse centro “nihilíco” pode dar bons motivos pelo qual tentar olhar para ele seja mesmo desesperador, a não ser que se faça uma mudança conceitual de um Nada para um Caos, o que para efeitos práticos pode ser equivalente, exceto a diferença substancial entre ser dissolvido numa matriz de Ser, ou ser aniquilado num processo nadificador.

Penso que Cabrera está certo. O Caos Primordial nos constitui, e dele temos algum tipo de indefinível aversão. Mas acho que deve-se explorar a diferença em não se enxergar no escuro, e ficar ofuscado ao olhar para um centro de luz insuportável.


Suicídio

Peço perdão ao Diógenes por só depois ter me dado conta que pareci ter dito que o trabalho dele não era relevante, exigindo até a nobre intervenção do Cabrera. Inclusive convidá-lo foi idéia minha! Na verdade, digo apenas que concordo com tanta facilidade com ele que me espanta que existam discordâncias. Custa-me crer que, livres de bagagens platônicas ou místicas em geral, alguém condene o suicídio em si.

Também me confundi um pouco entre a condenação, via de regra religiosa, do suicídio doloso, com a simples desconsideração da possibilidade do suicídio culposo. Embora pense que o senso comum tenderá a rejeitar tal possibilidade, ou invocar algum impulso tanático para rotulá-la de dolosa.

Mas o tema me recorre pela situação da EN ser a mesma das religiões nesse ponto. Descrevem uma existência trágica e ou uma pós existência ditosa, mas para se esquivarem da inevitável preferência pela saída de emergência, invocam alguma razão para coibir ou desestimular o suicida.

Às tradições basta invocar punições transcendentes pelo crime de tirar uma vida que, a princípio, não seria própria, mas dos deuses. À EN, desprovida de tão versáteis entidades, se desdobra em malabarismos para desviar a mesmíssima pergunta do centro das atenções.

E não penso que a mera consideração pelo sofrimento alheio tenha qualquer relevância, principalmente a dos pais, visto serem os culpados pela entificação não solicitada do vivente. Ainda mais pela inabilitação moral intrínseca que deveria ao menos levar à equivalência o permanecer e o cessar, mesmo com algum impacto nos demais.

Suicidar ser fácil ou difícil é questão de grau. Seja no Joelma ou no World Trade Center, numa sala flamejante, assim que o calor, o sofrer, estiver insuportável, qualquer um salta pela janela. Daí, penso que num mundo tão repleto de estruturas altas e pleno de força gravitacional, um salto glorioso para fora da vida só desencoraja a quem não está a sofrer a tal ponto. Jovens que se jogaram da Torre de TV ou no Pátio Brasil, ao menos 12 pelo que sei, não parecem ter encontrado muita dificuldade no intento, visto já terem atingido o ponto de saturação psicológico necessário.

Mas é compreensível que a EN invista na desqualificação dessa questão, para prevenir ser criminalmente imputada como incentivo ao suicídio. Essa barreira sociológica, no entanto, não deveria erguer-se ante a simples inquirição filosófica.

Tiago de Diabolis, personagem de Porque Te Amo Não Nascerás, tem uma posição bem mais interessante sobre a condenação da reprodução. É possível que o vivente experimente certa agonia do viver a ponto de possuir uma existência miserável, ônus que recái sobre os progenitores, que podem ser solicitados a dar alguma satisfação.

Mas insisto que viver, em oposição ao “estar morto substantivo”, é situação reversível, e ante a alegação da dificuldade, penso que de fato o suicídio é dificílimo somente para quem ainda quer viver!

A EN insiste que o suicídio não elimina o dano existencial vivido, embora me pareça irrelevante algumas décadas de vida entre duas perenidades. Mas os que conheceram a existência ao menos tiveram alguma escolha, podendo abandoná-la, como de fato muitos fazem. A cada dia, o viver, ou sobreviver, por mais difícil e dilêmico que seja, ainda implica uma opção pela permanência, opção absolutamente inacessível às virtualmente infinitas possibilidades existenciais que jamais foram entificadas, e que, curiosamente, em sua maioria parecem preferir a permanência, contra todos os pesares, por mais que se invente mil e um argumentos para negar que tal escolha seja legítima e considerá-la mera reação desesperada.


Otimismo e Teleologia

A associação é justa, visto que não só no sistema que defendi no mestrado há nítida teleologia, pelo viés progressista, bem como no que chamo de Otimismo Artificial (a reação religiosa ao Pessimismo Essencial) também haver.

Mas lembro que descrevi um Otimismo original puro, aquele que não é condicionado por circunstâncias externas, mas totalmente espontâneo, fortemente associado à constituição psicológica do indivíduo.

Nesse sentido, não há teleologia alguma, a vida é sentida como boa diretamente. Um Bem-Estar, uma “alegria de viver”, como ironiza-se frequentemente. Não há télos porque o otimista já está onde quer, deslocando qualquer fim para outras questões.

Sou exemplo de tal constituição. Em oposição aos que desde pequenos sentem a tragédia existencial, a mim sempre surpreendeu o fato das pessoas parecerem dificultar tanto as coisas. Tudo me parecia tão simples que surpreendia-me, aliás até hoje ainda me surpreende, como tantos conseguem ter tantos problemas!

Exceção foi justamente o período em que sucumbi à carga religiosa, em especial gnóstica, e outras formas de misticismos que busquei ativamente na juventude, do quais me livrei pela via do ceticismo, não apenas recuperando, mas mesmo maximizando meu bem estar original.

Mas voltando ao télos, não caberia também teleologia no pessimismo?

Ao menos no mais estruturado, principalmente a EN, não é também teleológica? Como poderia um sistema ético não sê-lo? E principalmente um que defenda a superação da ética?

E mesmo o pessimismo vulgar, não teria também alguma finalidade?

Se bem que, sendo seres intencionais, e intenção pressupõe finalidade, talvez seja difícil achar algo não teleológico na existência humana.

E por quanto tempo evitaremos a questão de que o pessimismo também seria uma reação à terminalidade, ou, penso eu, à uma pré disposição incômoda que encontra nele exatamente sua superação?

Nesse sentido, seria explicitamente teleológico. Uma saída estética que neutraliza, ou ao menos alivia a “tristeza de viver”. Ao passo que o tal otimista puro, por já estar onde quer, ou já querer estar onde está, não precisaria de télos algum.


Pessimismo e Sociedade

A pergunta de Fabiano Lana à Cabrera, devidamente interceptada por um remoto Gabriel Silveira, sobre questões sociais envolvidas, cedo ou tarde terá que ser enfrentada. Se a EN lograr maior repercussão num mundo onde o termo “social” virou mantran, não há como se esquivar de duas questões fundamentais: Qual sua utilidade para as questões sociais (a serem entendidas); Qual a sua utilidade para as questões sociais (a serem revertidas).

A meu ver, a contribuição para o entendimento é inegável porque ela de fato descreve uma visão de mundo válida, e insisto, muito mais popular do que seus simpatizantes costumam pensar. Como as mentalidades são o fundamento da existência social humana, uma psico sociologia sobre o tema deve ser fértil.

Para a solução, me parece nada menos do que totalmente contraproducente. Aliás, qualquer forma de pessimismo em geral. Problemas sociais foram historicamente abordados sobre um inexorável otimismo progressista, aliás, parece inconcebível que fosse diferente. O que sempre insisto, é que a EN só poderia legar como resultado prático a redução ainda maior da taxa de reprodução das classes mais favorecidas, tendo eficácia zero em moderar a reprodução desenfreada das classes que realmente precisam fazê-lo. Em suma, ajudaria a concentrar renda. Isso sem contar o fato de a simples menção da desvalia da vida humana e da inabilitação moral jamais poderiam ter qualquer resultado social sequer remotamente desejável.

Como sempre digo, a EN é uma afirmação da impossibilidade da ética, como penso este evento ter deixado bem claro. Qualquer de suas teses não tem utilidade no sentido político, econômico ou social. O máximo que poder-se-ia esperar dela é um sonho pós-ético inimaginável.


Marcus Valerio XR

Questões e Comentários

Marcelo Senna - 2 de maio de 2012 07:15


Agradeço o empenho em fazer a transmissão, essa primeira parte funcionou muito bem! 


Tentei enviar uma questão para o Julio Cabrera (cuja palestra infelizmente não pode ser disponibilizada em vídeo), mas não deu pra ser lida no debate. Assim, envio-a aqui novamente - foi formulado um pouco telegraficamente, por ter limites no canal USTREAM, mas aí vai:

Uma pergunta sobre a tese da inutilidade do diálogo - podemos contestá-la dizendo que o diálogo é uma forma de ação coerente com a ética negativa - mesmo que não se objetive a transformação do outro, se disponibiliza para uma transformação de si. 
É, em suma, a essência de uma educação negativa. 

Complementando: O diálogo é uma discussão (e não uma disputa, como diz Kant na Crítica do juízo), não se pode disputar a verdade com o outro, mas pode-se ampliar-lhe a sensibilidade e a compreensão e, mesmo que não chegue a concordar conosco, aprimora a relação entre seres fadados a um grau de incomunicabilidade como nós.
Por isso o diálogo é uma forma de interação negativa com o outro.
PS: o diálogo é uma marca essencial do amor negativo - [o enlaçamento possível com o outro terminal, como eu.]
PS2: O aspecto mais otimista do pessimista negativo é disponibilidade para, no diálogo, tentar criar valor.

Desse modo, argumento a favor da "utilidade negativa" do diálogo.

é isso, como disse, formulado sinteticamente; se interessar, podemos tentar aprofundar e ampliar a questão.

abraços,
Marcelo

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Marcelo Senna - 2 de maio de 2012 07:20


olá a todos e todas,

agradeço mais uma vez o empenho na realização da transmissão do seminário Pessimismo e Otimismo Moral, gostei muito de acompanhá-lo e conhecer as contribuições e críticas de vários sobreviventes, de mim já conhecidos ou ainda não. Elogio também a perspicácia da moderação virtual, que soube escolher trechos relevantes do debate virtual que se realizava paralelamente para apresentar como perguntas. Foi bom ter contato com o Gabriel, de Maceió, através desse debate também. Também gostei que os vídeos das palestras tenham sido mantidos na página, consegui assistir às apresentações finais ontem e gostaria de, eventualmente, voltar a assistir alguns dos vídeos como forma de recuperar pontos importantes de argumentação.

Abaixo seguem duas tentativas de desenvolver alguns pontos que o seminário me deu a pensar. Envio como forma de retribuição pelas múltiplas ideias e questões oferecidas pelos vários participantes, esperando quiçá suscitar alguma questão sobre a qual valha o diálogo. Incluí, além da referência filosófica, duas referências ao cancioneiro brasileiro, na medida em que aí podemos encontrar também pensamento de dimensão e valor filosófico (vai aqui a licença de alguma afrociberdelia, conceito de Chico Science). Tento praticar a filosofia num nível escolar, o que inclui trechos de conversa algo jornalística, talvez, mas procura não perder de vista as questões essenciais, abordando-as através desse discurso misto entre teoria e reportagem (quiçá ao modo antropofágico). Vai ainda no estilo um tanto telegráfico e inacabado, mas parece-se suficientemente compreensível.

1. Na Crítica de la moral afirmativa (1996), p. 161-162, Cabrera parece entender a educação como a educação que o progenitor está obrigado moralmente a oferecer a seu filho; ou, por outro lado, como a educação que o filho tem o direito de demandar ou exigir do progenitor, pelo fato de ter sido feito nascer [de ter nascido]. Porém a educação não se deixa pensar apenas na relação entre progenitores e seus filhos. Ela pode e precisa ser pensada também na relação de sobrevivente a sobrevivente. Essa educação da sobrevivência não apenas é possível mas pode ser dita até mesmo necessária. Não é a demanda por essa educação que podemos encontrar nos movimentos autoeducativos em situações de vulnerabilidade e ameaça radicais, como na sobrevivência nas periferias conflagradas de cidade e campo ou a sobrevivência nos campos de concentração? Assim, se queremos pensar a educação negativa, podemos olhar para experiências de hip hop, entre outras. Referência inicial: Racionais MC’s, Sobrevivendo no Inferno (1997) http://www.radio.uol.com.br/#/album/racionais-mcs/sobrevivendo-no-inferno/18501

[Cd publicado um ano após a Crítica de la moral afirmativa]; em cujo encarte podemos encontrar a enunciação de duas teses ontológicas: “periferia é periferia (em qualquer lugar)”; e “aqui quem fala é mais um sobrevivente”. [a desenvolver]]. [considerando a saudação inicial a São Jorge, pode-se pensar até mesmo em uma religiosidade negativa, a religiosidade do hip hop]. [uma religião negativa na qual o cultivo da palavra (do debate, da discussão, das tentativas de comunicação mesmo no meio da incomunicabilidade, dos obstáculos inarredáveis à comunicação e à comunhão) – para voltar ao tema da inutilidade dos diálogos e debates filosóficos, ou do amor vivido neles, da morte através da palavra (...) [toda sobrevivência é uma religião, tese subsidiária].

(...) 2. Para outro tópico: o não ser não é o vazio, mas o caos. O não ser é o caos. O ser é tudo o que é o caso? O caso é o caos. O caos é ser e não ser, devir é caos, fonte originária do aparecer e do desaparecer. Qual o valor do caos? Não é uma opção estarmos fora do caos, nem mesmo na morte (a morte não é a saída do caos, embora seja a saída da vida). A ética negativa é, em alguma medida, subjetiva, pois se refere ao ser e não ser dos sujeitos humanos, das vidas humanas, dos indivíduos humanos. Para ser uma ética para além da subjetividade, deve caminhar na direção de uma ética imanente, uma ética do caos, uma ética transsubjetiva, além do sujeito. A diferença entre o caos e o não ser talvez esteja primordialmente no resíduo de mistério presente no caos e que no não ser parece estar oculto ou ter sido eliminado. [a reserva de mistério faz com que seja permitido à ética negativa manter uma espécie de agnosticismo primordial (“Ur-agnosticismo”...), e aproximar, nesse nível mais radical, a razão e a magia [a desenvolver, bastante; - uma tentativa: o caso é que aqui nos encontramos no limite da razão e da moralidade racional, nesse limite em que o pensamento torna-se ação, o negativo se realiza como positivo evanescente, a razão em fluxo talvez não possa ser senão magia - esta parte está menos elaborada, reconheço]. 

Referência aqui é a obra de Jorge Mautner, cuja presença-ausência da morte-vida, investigação da dialética do sim e do não, consideração do mistério – e do amor “transsubjetivo”– podem ser encontradas em vários lugares, dos quais indico agora apenas duas canções: “Morre-se assim” e “Pedra Bruta”.

Podem ser ouvidas na radio UOL: http://www.radio.uol.com.br/#/busca/jorgemautner
Ou ver outras referências em: http://www.jorgemautner.com.br/

Donde, da consideração de educação e caos, ressalta a necessidade de pensar o amor negativo. (voltar ao Projeto de ética negativa).

Alguém se anima a dobrar ou desdobrar esses pontos?

abraços,
Marcelo

PS: foi divertido ver o tom algo teatral do final do seminário, no qual a inutilidade da comunicação foi mais uma vez comprovada! E, no entanto, houve comunicação!

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Marcelo Senna - 2 de maio de 2012 07:24

olá,

envio uma suma dos comentários sobre a palestra de Fabiano, produzidos no debate virtual da palestra e um pouco além. Seguem os comentários:

Achei a apresentação de Fabiano interessante, mas me incomodou um pouco pensar a ética só individualmente e nao vê-la como um fenômeno social, ela surge em sociedades, e já surgiu em várias; então, mesmo que as condições biológicas e psicológicas sejam adversas à ética, ela não deixa de existir, como tarefa heróica ou impossível, mas existe.
Tanto a moral como uma norma social que envolve valor; quanto a ética como reflexão filosófica - existem ambas!

É nas relações sociais onde se cria o valor; a ética não patina no vazio, mas cria seu próprio chão, cria a si mesma na sua relação com os outros; antes de patinar no vazio, ela navega sobre ondas, ou surfa no caos. De fato, pode-se problematizar o conceito de vazio com o conceito de caos, ou não?

Acho que o Fabiano apresentou argumentos que fortalecem a tese da inabilitação moral, mas não impede que a ética exista como constituição de si, cuidado de si - afirmativa ou negativamente. - a ética não é natureza, mas é segunda natureza...
A educação é justamente o trabalho de produzir o "humano", moldar as forças instintivas numa forma de ser.

Acho que a ética está na tensão entre o governo de si e dos outros, constituir a si sempre se dá na refrega – a refrega entre afetos meus e doutros, a luta e o jogo onde se criam os valores.
Então a ética talvez seja uma vertigem por ser apenas um dos lances do jogo de afetos e poder... será?

Você acha que o jogo de forças se dá no nível do ser? Nós nos constituimos nesse jogo, com vertigens éticas? O que seria a ética, se não uma vertigem? (não um fundamento, mas um efeito).

Uma vida pós-moral deve ser algo assim, como o cuidado de si que sabe de seu vazio, um cuidado negativo de si; e que também se sabe cuidado do outro, governo de si e governo de outro. Uma ética imanente, uma ética dos afetos, como a de Spinoza, pode ser uma matriz para isso, ainda que seja preciso fazer uma discussão negativa da ética de Spinoza.

abraços,
Marcelo
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Marcelo Senna - 6 de maio de 2012 09:46

ética arrodeia corguinho. [polêmica provocativa underground n. 5]

a propósito das cifras de Cesar e Alessandro:

sertaneja otimismo pensa o ser como além de não ser, kaos e mulher. O ser é mulher: “caba não mundão, caba não que é bão, quanto mais mulher bonita a gente bebe e acha bão”. O otimista é, como já observado no seminário, heteroteleológico. A mulher, o ser, o infinito é a quem me entrego como finito, não ser, homem. Além de hetero, o otimista é o ponto de vista do macho, entregue à fêmea do ser, ao ser como fêmea. O ser é feminino: a ser. É na mudança do artigo em preposição que se revela a diferença entre bom e bão: bão é desfruto enquanto bom se usufruto. E o bem então? É feminina, a ser: a bem. O curso do rio, currículo, é a corguinho, córrego corrência errância da ser líquida (“mulher bonita a gente bebe”), a ser bela e boa, a bem. Pular o corguinho é pular a ética; a ética é o arrodeio do corguinho, o percorrer os limites do seguir e pular – ética imanente dos afetos. A morte é o corguinho que já nasceu pulado. A lâmina da ser, a fio cortante, a morte, a corguinho. Será um otimismo negativo a consciência da corguinho, entrega da vida a mistério e kaos na forma fêmea da ser? Como herákleitos, na beira do rio logos: ethos anthropos daimon. De uma tradução impossível a um novo fragmento. [incompleto como sempre, mas nunca deixando de tender à constelação ressignificadora (...)].

O otimista afirmativo é sertanejo, o otimista negativo é punk. Mas há um punk sertanejo, devidamente transtornado: http://www.youtube.com/watch?v=X-wsEjfAIQU&feature=related
Para Conde e Dracula, bom domingo.

Questões para Julio Cabrera

Se se sabe que viver é sem valor e que a própria busca por reconhecimento é fuga daquela constatação, por que, mesmo assim, insistir em ser reconhecido? Por que um filósofo ético-negativo quer ser reconhecido como tal? Se for um anseio psicológico, isso quer dizer que há elementos irracionais que conduzem o comportamento sem passar pelo crivo da razão negativa? Sendo assim, por analogia, outros anseios psicológicos, tais como a vontade de ter um filho ou o desejo de abortar uma gravidez indesejada também estariam isentos de análise moral?

Se as relações humanas são essencialmente conflitantes e se não há possibilidade real de discussão filosófica, por que insistir em tentar fazer prevalecer sua posição filosófica em relação às demais? Você não comete algum tipo de falácia quando diz que não acredita em discussões filosóficas mas se dispõe a participar de uma? Não seria uma espécie de tentativa de apelo relativista antecipado para evitar um confronto com um adversário que possa representar uma ameaça a seus argumentos? Além do mais, se os dialéticos estão corretos, a simples discussão entre Cabrera e Marcus proporcionou uma "transmutação" de ideias que seguiram rumos próprios e em níveis diferentes, por exemplo fazendo-me escrever este e-mail. Não surgiram ideias fabulosas como resultado de querelas filosóficas? Os próprios filósofos não revêem certas posições depois de submetidos ao debate? Enfim, não há um resultado positivo, um certo refinamento da discussão, quando há diálogo filosófico?

Se os aspectos empíricos ou ônticos do comportamento são contaminados pela falência estrutural do ser humano (e.g., o argumento da velha folgada do caixa eletrônico), ou seja, se são reflexos de sua falência ontológico-terminal, então devo concluir que se não há saída para a miséria ontológica, tampouco haverá escapatória no mundo ôntico? Se a resposta é sim, então a ética negativa está habilitada a afirmar a necessidade de ações políticas positivas (ônticas) em defesa da sociedade - de seres humanos terminais -, como a busca de soluções para a erradicação da miséria, para a redução da criminalidade, para o problema dos órfãos abandonados, para o tratamento dos doentes mentais, para a garantia da liberdade de pensamento etc? (Abro estes parênteses para confessar que odeio movimentos políticos puramente negativos, como a tal "Marcha contra a corrupção". O que essa marcha propõe de positivo para a melhoria do sistema político brasileiro?)

Tive uma dúvida parecida com a do Marcus. Se para a ética negativa a vida é estruturalmente sem valor, por que se pressupõe negativa? Você quer dizer que a sua ética nega o valor da vida ou que a vida, em si, não tem valor? Se não tem valor, se é nada, nada se segue. Mas se é negativa, é o contrário de uma positividade necessária para o próprio conceito de negatividade (isso me lembra o Diálogo "O Sofista", de Platão, quando o Estrangeiro defende que o não-ser é, me arriscando a fazer uma aproximação entre as categorias ser/positivo e não-ser/negativo). Portanto a ética negativa pode ser uma ética primordial ou será sempre reativa, não no sentido em que ambas as éticas, positiva e negativa, são reativas à condição de estar jogado numa existência angustiante em busca de um ser inalcançável, mas reativa à outras propostas éticas positivas anteriores. Como sustentar o negativo a partir do que não tem valor? Quando se assume uma postura "anti" alguma coisa, já não se está fazendo parte do quadro que se está negando, como diria Hegel?

A ética negativa não é também uma reação, uma forma simbólica construída para escapar à condição humana intrinsecamente deplorável? Por ser uma filosofia produzida por um ser terminal, não se trata de mais uma tentativa de pôr em ordem o que não pode ser ordenado, ou melhor, de aplacar a dor da certeza da própria miséria? Em caso positivo, ela se confundiria com as éticas positivas pelo menos na motivação de sua existência?

Posso pensar em falácia da circularidade? Premissa: a vida não tem valor intrínseco; Conclusão: devemos viver de acordo com a moral, pois a vida não tem valor intrínseco.

A própria possibilidade de surgimento de uma ética negativa não depõe contra o pessimismo absoluto em relação à espécie humana? Quando o valor do humano é negado, também são negados os valores de suas criações culturais e feitos históricos? Que tenha surgido um filósofo que pensou uma ética negativa me parece engrandecer algum aspecto possível do humano. Que dessa raça miserável tenham surgido Platão, Mozart, Bergman e Machado de Assis, cujos trabalhos engrandeceram notavelmente a cultura humana, parece ser algo anti-intuitivo para uma posição negativa sobre o valor da vida, pressupondo-se que arte e filosofia são produzidas por seres humanos enquanto viviam.

"A vida é patética, não trágica". Concordo em parte. Realmente perdemos muito tempo de vida com situações nada engrandecedoras, como enfrentar filas de qualquer natureza, resolver problemas domésticos ou lidar com pessoas dispensáveis. Mas dizer que a vida não é trágica é o mesmo que dizer que não há vida trágica? Não seria melhor dizer que, em geral, a vida não é trágica? Há casos conhecidos de vidas trágicas, como, para citar um clássico, o de Abelardo e Heloísa ou o de Gandhi, este tão bem retratado no cinema.

Éder Carvalho Wen

Carta para um diálogo entorno da miséria ôntica e a ética negativa.

Cabrera, 

Assisti à sua fala no seminário pela internet. Parabenizo a você e ao Marcus pelo fôlego da discussão. Paradoxalmente ou não, me parece muito valioso o esforço que vocês estão fazendo entorno da discussão da desvalia de ser, pessimismo e otimismo. 

Fabiano Lana fez uma interessante pergunta para você entorno da questão da relação (ou da falta de relação) entre a estrutura terminal e questões sociais. Se haveria alguma esperança no quadro de uma mudança social para a melhora da condição moral e sensível dos seres humanos. Você respondeu pela negativa. O interesse da minha colocação (tateante) se coloca na proximidade desse problema, isto é, do problema de uma relação entre a condição social e a terminalidade. 

No livro que você escreveu com o Thiago Lenharo ("Porque te amo não nasceras), na página 47 encontramos: "A imensa maioria da humanidade (os 'excluídos' de Enrique Dussel) não está em condições sociais de perceber o desvalor estrutural do ser. Sua situação onticamente penosa os faz acreditar, até a morte, que seus males são sociais, eventuais, contingentes e evitáveis." Você afirma ainda que os bens ônticos de que são privados os fariam ver alimento, vestuário e habitação num horizonte que os torna maravilhosos. O que não acontece numa situação normal e justa. Continuando na pagina 48 temos: "Eles [os miseráveis] são excluídos da visão da estrutura mortal (terminal) do ser, preservados dela ao serem afundados no intramundo que os exige de maneira absorvente e exclusiva: famintos e sem tempo para o ser". 

Aqui coloco a primeira questão: 1) A despeito dos esforços dos excluídos para sair ou diminuir a miséria ôntica, seria um mal negocio vencê-la e trocá-la por uma situação normal e justa de onde se perceberia a estrutura da terminalidade? A penosa e deficitária lida ôntica não poderia, no quadro da vida numa estrutura de terminalidade e inabilitação, ser uma boa distração? Quero com essas perguntas estimular a discussão, e não atribuir, apressadamente, implicações e avaliações implícitas ao esforço do seu pensamento. 

Voltando a questão do Fabiano Lana e articulando a essa parte do livro (p.47-8) eu diria que esperava que você limitasse na sua resposta (como limitou) as pretensões de soluções sociais para o patamar básico da ética negativa... E acho que está bem assim. Por outro lado, eu esperava que viesse um adendo junto com isso, no sentido do que você sugere como justiça negativa (p.48). Isto é, que situasse, como você faz no livro, o pessimismo estrutural como um luxo de classe. (Por sinal, eu gostaria vivamente de ler mais coisas suas que tratassem daquele confronto ali esboçado!). Isso me parece da maior importância! Ainda que a terminalidade seja trans-social, trans-historica, etc, seu acontecimento é situado desde a perspectiva dos que vem a nascer. 

Na sua fenomenologia da estrutura terminal do ser deveria entrar (na minha opinião, muito antes das filas dos caixas eletrônicos) a valoração negativa que os moradores da Estrutural recebem dos passageiros do ônibus ao entrar: basta olhar os pés sujos de lama deles e os moradores de Taguatinga lá dentro os desprezam como aqueles que vêm da invasão. Isso me parece importante porque ainda que o pessimismo estrutural seja um luxo de classe ele certamente pretende mais do que ser uma leitura da desvalia estrutural do ser confinada aos hábitos e acontecimentos normais de uma vida comum de classe média. Daí vou para minhas últimas perguntas: 2) Como falar da estrutura terminal do ser poderia garantir-se de não desconsiderar o acontecimento de ser do outro? Em outros termos, não deveria ser uma preocupação central da ética negativa não estabelecer relações de desconsideração com o particular? 3) Por que a situação de não estar submetido à miséria ôntica (de onde se vê plena e corretamente o desvalor estrutural do ser) é normal e justa? 

Nos últimos dias tive uma discussão com Fabiano Lana sobre questões relacionadas ao que apresento aqui, tendo ele dito coisas interessantes que eu o incito a elaborar novamente nesse espaço. 

Abraços, 
Gabriel Silveira. 

P.S.: Sei que houve mudanças terminológicas importantes no seu pensamento, tendo você abandonado o vínculo direto com a distinção heideggeriana entre ser e ente, preferindo falar em termos de terminalidade estrutural... Mantenho o termo miséria ôntica por referência ao livro “Porque te amo não nascerás” imaginando que ainda haja espaço no seu pensamento para a preocupação indicada por meio daquela terminologia, ainda que reelaborada ou reestruturada em outros termos.

Comentário ao Evento [Parte I]

Aos que participaram ou acompanharam o Seminário Otimismo e Pessimismo Moral.

Antes de tudo, gostaria de declarar que achei o evento ótimo. Todas as exposições foram competentes, contributivas, e delinearam bem a contenda. E não creio que alguém esperaria que outro mudasse seu ponto de vista por completo, portanto, a polêmica, até menos passional do que previ, mais do que previsível, foi mesmo agradável.

Se o seminário não pôde corroborar a tese da impossibilidade, ou possibilidade, da ética, seja lá o que isso for, ou corroborar a validade ou não do pessimismo ou do otimismo, ao menos serviu para corroborar não a inutilidade da discussão filosófica, mas a Soberania da Subjetividade.

Mas nem tudo é vão. O Professor Cabrera mudou alguns pontos de sua concepção. Eu também.

Algo que eu até já intua, mas me convenci agora, é que mesmo tendo tal vontade e percepção, o melhor motivo pelo qual não posso dizer que a vida em si é boa, é por que me parece uma falta de consideração com aqueles que, em sua subjetividade, achem o contrário.

Fazendo coro com o minimalismo proposto pela Ética Negativa, não creio que o depressivo esteja errado, qualquer que seja o motivo ou origem de seu desgosto. Dizer-lhe que a vida é boa e o problema é com ele, é jogar-lhe toda uma responsabilidade injusta. Ninguém tem culpa de se sentir mal, talvez nem mérito em se sentir bem.

Isso tem consequências práticas interpessoais para mim, e pouco me importa saber que o Pessimista Essencial, com sua certeza de descrever o Real tal como é, jamais chegaria à conclusão simétrica.


Ética e Possibilidade

Como o professor Cláudio bem definiu, a impossibilidade da ética poderia dar-se em dois sentidos. Primeiro, por uma via que a defina em Absoluta Incompatibilidade com a existência, onde todo e qualquer ato vital, por mínimo que seja, fosse por si só anti-ético.

Se beber um copo d’água, mesmo num ambiente onde a fartura desta for imensurável, ou mesmo respirar, caso onde a fartura é de fato imensurável, forem atos anti-éticos, então, é evidente que é impossível agir eticamente.

O segundo sentido, seria o da Infalibilidade Ética. Como não é possível ser absolutamente ético por 100% do tempo, a ética seria impossível. Poder-se-ia reduzir essa exigência para algum outro valor, mas teríamos o problema da quantificação.

São duas teses harmônicas, uma pode ser aplicada para sanar a outra. Poderíamos dizer que podemos ser éticos em algum grau, talvez até bastante elevado, atos relacionais interpessoais por exemplo, logrando valores próximos de 100%, mas se os atos vitais forem incluídos na conta, o valor cairia a zero, ou para os mais entusiastas, abaixo disso.

Há um terceiro sentido, o qual eu acrescentei anteriormente, que remete ao tema da concepção do Altruísmo Absurdo. Que se pode estar em Kant, não me parece estar em qualquer outra tradição. Nem mesmo estava na saudosa Articulação Ética Fundamental (a mim, Regra de Ouro rebuscada), pois não incluía que a ação deveria ser sempre contra, ou desconsiderando completamente o interesse próprio, mas sim bastando incluir os interesses dos demais.

Vejo tais possibilidades insustentáveis, e é curioso que me tenha sido dito que pretendi redefinir conceitos fundamentais, num mundo onde qualquer teoria que tenha proposto impossibilidade similar parece minoritária, ou inexistente. O auto desprezo jamais poderia ser exigido por Aristóteles principalmente lembrando a questão do meio termo, onde a desconsideração completa de si próprio deve ser evitada tanto a quanto a do outro. Nem mesmo em qualquer forma de consequencialismo, onde é absurdo supor que o aumento constante do Bem numa sociedade não favorecesse de algum modo o próprio agente, afora o fato de que com frequência o interesse deste é irrelevante. Também nas éticas sentimentais não há lugar para qualquer uma das possibilidades supra citadas, e o mesmo posso dizer das tradições orientais que estudei um pouco.

Talvez só mesmo Kant poderia articular algo que levasse nesse sentido, mas penso que até isso é discutível, pois se o propósito da Imperativo Categórico (outra Regra de Ouro Rebuscada) é a universalização, como supor que a mesma não beneficiaria o agente por decorrência? Pode-se até desconsiderar a questão emocional, o prazer que embute o agir, que deveria ser negligenciado em favor do senso de dever, mas não vejo nesse ponto um elemento que necessariamente exclua o benefício em retorno ao próprio agente pelos seus atos éticos. Como pode alguém imbuído de forte senso de dever não ter algum apreço por um mundo mais ético?

Ou, como insisto, ética para alienígenas não deveria ser tomada como referencial humano.
Se remodularmos a pergunta tema, teremos:
É possível Abdicar dos Atos Vitais? NÃO!
É possível ser Éticamente Infalível? NÃO!
É possível ser Completamente Desinteressado? NÃO!
Mas em que momento qualquer um desses conceitos, ou todos juntos, se transformaram na Ética em si?!


Além da Ética ou Ética do Além

Mas a pergunta mais interessante não é essa, e sim o que viria depois. Se abandonássemos a Filosofia Moral, provavelmente não faria muita diferença, se abandonássemos os códigos de condutas explícitos, ou mesmo as leis, talvez pudéssemos nos adaptar. Mas alguém pensa que isso faria com que a partir de então, nesse maravilhoso mundo pós-ético, poder-se-ia fazer qualquer coisa com qualquer um que ninguém se importaria?

Digam-me, se todos nos tornássemos negativos e assumíssemos em alto e bom tom que sendo a ética impossível, vivemos num mundo além, ou aquém, dela. Qual a diferença prática? Todos iriam alegremente matar uns aos outros? Roubar tudo o que quisessem e ninguém ligaria? O que significaria suspender todas as condutas morais?

Ou seria exatamente essa a idéia? Extinguir a espécie humana por um meio bem mais eficaz e rápido que convencê-la a morrer por não reprodução? Ou ao menos, extinguir a civilização levando-nos de volta ao mundo animal?

E aí sim, se concordamos que a ética é produto humano, ela deixaria de existir.


A Valoração da Existência...

...agora, me parece ainda mais dissonante. Na realidade, penso que é de irrelevância total tanto para a EN quanto até mesmo para posturas pessimistas ou otimistas. Nesse ponto, discordo do professor Cláudio, me parece que mesmo o anti natalismo independe da valoração negativa existencial.

Também digo que uma valoração positiva da vida é inadequada. Nada contra afirmar que se crê que existir é bom ou ruim, que se goste ou desgote disso ou daquilo, ou mesmo que se diga Better Never To Have Been, o problema é que nada disso torna a existência algo quantificável ao qual se possa atribuir um valor discernível. Concluo que até mesmo atribuição de um valor zero seja improcedente.

Penso que essa tese é tão obscura que não se basta. Não é algo que seus defensores apresentam por si, mas, sempre, acompanhada de inúmeras apelações às contingências da existência. Cabrera pode achar que o fato subjetivo, embora pseudo objetivado pela opinião da maioria, de não gostarmos de nosso ‘morrer’, resulta em algum tipo de expressão aritmética resultando em X < 0, como se tal simples fato esgotasse por completo toda a complexa dimensão da existência.

Tudo fica ainda mais confuso, ou talvez até seja essa minha perplexidade original, com o fato da mortalidade parecer absolutamente central à tal tese negativista, mas ao mesmo tempo Cabrera ter admitido que mesmo seres imortais e absolutamente indestrutíveis, mas que pudessem deixar de existir caso o quisessem, estariam também negativados em sua existência!

Ora, então o problema não é a mortalidade, que pouco ou nada teria a ver com isso. A existência seria trágica, ou patética, pelo seu atrito constante. Ou melhor dizendo, o problema seria o ‘movimento’, o devir, a constante impermanência e insubstancialidade. Mesmo esses deuses perenes estariam sujeitos à mudança, e como existir parece ser, necessariamente, constante transformar, se isso for considerado ruim, nada poderia evitar concluir pela tragédia existencial.

Curioso que poderia até admitir a valoração negativa e ao mesmo tempo sustentar um otimismo pelo argumento da criação intramundana de valores, ou ao menos sua possibilidade, poder superar essa negatividade. Mas como o intramundo e a “coisa em si” da existência foram jogadas em dimensões separadas, essa proliferação de valores positivos jamais seria aceita como contrapartida, enquanto que, por outro lado, parece que todos os males intramundanos parecem sim ser aceitos como demonstração dessa desvalia essencial.

Por outro lado, também poderia considerar um valor intrínseco positivo para a existência e mesmo assim sustentar um pessimismo, até mesmo anti natalino, pelo fato de que exatamente por ser boa, mas estar fadada à perda, a existência intramundana seria necessariamente trágica apesar da “coisa em si” da vida ser positiva.

Parece que essa questão da valoração é por completo irrelevante, e eu me absteria de discuti-la não fosse o fato de que sempre retorna como um fato objetivo a corrigir percepções, até mesmo em experiências de pensamento.


A Escolha da Odisseu

Quem sois vós, mortais, para declarar que o grande herói Odisseu estava errado ao preferir a vida mundana que a perenidade da vida ao lado de Circe?

Se a ele fosse dito: “Odisseu, ficar na ilha de Eana tem valor superior a sair dela.” E Odisseu concordando que deveria escolher o valor maior, preferisse sair da ilha, de fato teria escolhido errado. Mas a escolha foi consciente, ela tinha uma obrigação com sua esposa e filho, o que tornou ainda mais estranho ouvir do Diógenes que escolher o dever para com eles em detrimento do próprio interesse egoísta em viver numa ilha de prazeres seja errado.

Ademais Odisseu parecia até aborrecido. Possivelmente entediado pela simples existência perpétua. Estaria eu errado por preferir pagar R$ 1.000,00 por um ano de assinatura intransferível de um canal de séries de ficção científica do que R$ 50,00 por uma assinatura vitalícia para assistir ao brasileirão?!

Em que a perenidade me obriga a escolhê-la se a mesma não for de meu interesse?

Talvez, se a Odisseu tivesse sido dada a oportunidade de trazer sua mulher e filho, e amigos, para viver na Ilha de Eana, aí sim, parece que a situação mudaria.

E tudo isso apenas mostra o quanto essa valoração objetiva da existência tem que frequentemente apelar para valores intramundanos, sempre carregados de emoção.


Marcus Valerio XR